
Se você veio aqui esperando uma comparação da serie com a bíblia, sinto que vou te decepcionar. Minha ideia é trazer Lúcifer como um homem. Sim, um homem extremamente sexy, com superpoderes e lindas asas brancas, mas ainda assim, um, homem. Então, se é uma versão ruim da história bíblica ou não, ficarei devendo. Simbora?
A série começa apresentando um Lúcifer que vive em meio ao luxo, com muitas drogas, sexo, dinheiro e que tem o poder de não só saber como realizar o desejo mais íntimo de todas as pessoas, além de ser imune a qualquer ferimento, o que lhe torna imortal. Lúcifer nunca mente, sempre expondo seus sentimentos e opiniões da forma mais ácida possível, principalmente quando se trata de seu PAI, com quem não tem boa relação.
Lúcifer com o passar dos episódios e ao começar a se encontrar com uma psicóloga começa a se tornar cada vez mais sedutor e menos caricato e deixa ainda mais claro os pontos mais interessantes de sua história. E a partir de agora quero deixar claro que toda narrativa vem a partir do meu olhar e da minha vivência sistêmica com a série, certo? Então, que venha o Lúcifer aos olhos sistêmicos de Patricia Caldeira!
Um homem lindo, sexy (sim, eu sei que já mencionei isso) e atormentado por um sentimento de abandono parental. Digo parental, pois apesar de sentir mais dramaticamente o abandono por parte do pai, mas não se sentiu protegido pela mãe ao ser colocado no inferno sozinho para cuidar das almas “perdidas” em suas próprias dores. Lúcifer, assim como as almas que torturava, também estava submerso em dores, tão amaldiçoado que estava imune a qualquer sentimento, a qualquer ferimento. SE protegia, abandonava com medo de abandonar. Lutava para não dizer eu te amo porque tinha medo de não ouvir de volta. Descobria os desejos mais profundos dos outros, mas se recusava a olhar para dentro de si, pois, enquanto filho, não se via como adequado a desejar nada.
Com o tempo, ao se conectar novamente com o seu pai pôde perceber que um problema conjugal pode “derramar” para o parental e que a crise do casamento dos seus pais interferiu fortemente na comunicação intrasistema. Ele, que havia se sentido rejeitado durante todo esse tempo, testado durante uma eternidade, na verdade, era tão amado quanto poderia ser. A partir desse momento, o homem ferido se permite abrir para o amor e se torna genuinamente forte e vulnerável ao mesmo tempo, ampliando seu olhar para dentro ao conseguir segurar nas mãos dos outros ao seu redor. Ao olhar para dentro, percebeu que as almas que sentiam dor estavam apenas perdidas e solitárias, precisando encontrar o amor, encontrar a mão certa e então, ele descobriu o porquê de estar no inferno, o porquê de ter sido levado até lá. Não era de tortura o seu lugar, não era de castigo o seu lugar, era de amor, era de escuta, era de amor.
Texto: Patricia Caldeira
Psicóloga CRP03/4217